sexta-feira, 13 de maio de 2016

O duplo vínculo: a intolerância ambivalente no facebook

O duplo vínculo: a  intolerância  ambivalente no facebook

O "duplo vínculo" é o cancro da sociedade moderna, do capitalismo, segundo Gregory Bateson, a origem de muitas doenças, de muita auto-culpabilização.
"Vamos a um exemplo: a filha que já tem 20 anos de idade e resolve sair de casa e ir morar sozinha. Ela conta para a mãe e a mãe responde que está feliz por ela ter independência mas, ao mesmo tempo, saem lágrimas dos olhos. A qual mensagem a filha vai responder? A mensagem verbal ou a mensagem corporal? Talvez a filha resolva ter firmeza e sair de casa, mas fica com um sentimento de culpa e ambiguidade". in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

A possível solução para evitar a culpabilização, para matar o mal pela raíz, exige entender a metacomunicação. Ser assertivo. "A única forma de sair de um paradoxo é a meta comunicação. É a comunicação que fala sobre a comunicação. No exemplo da filha, a saída seria ela dialogar sobre as duas mensagens que ela está recebendo e perguntar a qual delas ela deve dar mais atenção."  in http://joaopedromeyer.blogspot.pt/2013/02/teoria-do-duplo-vinculo.html

Foi esta a base, simplificando imenso, da experiência terapêutica de Gregory Bateson. O problema não é de solução fácil quando estas situações têm por detrás anos de dominação e de chantagem afectiva. Ou, no caso extremo, quando são a base de arquétipos inspirados nas sociedades patriarcais.

Ora, esta atitude repete-se milhares da vezes no facebook. É clássica no elogio de uma foto por uma mulher aparentando estar feliz com a beleza da amiga. São palavras cheias de veneno. Mas o pior é quando essas palavras se disfarçam por detrás do "amor" e pouco a pouco abafam a vontade de liberdade e de autonomia do outro.
O pior é quando somos educados por um progenitor que propaga esta doença. Falta de amor positivo virado para a autonomia do outro.
É necessário distinguir muito bem entre culpabilização e sentido pessoal e autónomo de culpa, a consciência dos erros que se cometem. A culpabilização é um veneno insidioso que pouco a pouco nos esvazia. E mais quando não sabemos a sua origem, quando perdemos o contacto com o nosso eu profundo e autónomo.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A percepção, as pequenas percepções...

Reparem nesta frase:

"Eu vi um vulto lá fora. Olhei com atenção. Mas não compreendi a imagem do vulto que percepcionava".

Se olharem bem, nesta frase estão quatro tipos diferentes de visão:
- "ver", ver uma pessoa todos os dias durante anos sem nunca olhar para ela; ver a televisão durante anos num sofá sem nunca olhar para a televisão; ver o facebook todos os dias sem jamais olhar para o ecrã, etc.;
- "olhar",  dar atenção ao que se está a olhar (olhar com sensações e não com emoções ou com a mente);
- "compreender", dar um significado ou perceber o sentido do que está a ver;
- "percepcionar" sem querer dar um significado mental, uma pequena percepção sem querer dar um sentido e sem estar pré-condiconado pelo medo ou outras emoções, olhar de dentro como se a imagem entrasse em nós através da luz, sentir a sensação da luz na nossa retina, olhar impessoalmente, olhar com um olhar anterior.

Agora que conhecem estas quatro formas do sentido da visão, usem-nas com cuidado...

Uma glosa de um texto do Vítor Rua no Facebook.

"OUVIR-ESCUTAR-COMPREENDER-ENTENDER

...reparem nesta frase: "Eu ouvi um som lá fora; escutei com atenção; mas não compreendia o som que entendia durante toda a noite". Se virem bem, nesta frase estão quatro diferentes tipos de "audição": "ouvir"- a mais primária de todas; ouvir sem saber de onde vem, ou o que é; "escutar"- dar atenção ao que se está a ouvir; "compreender"- dar um significado ao som; perceber o seu sentido; "entender"- ouvir por ouvir; sem querer saber o seu significado ou a sua origem. Agora que conhecem estas quatro formas de audição, usem-nas com cuidado..."

No facebook de Vítor Rua em 9 de Outubro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bruno Latour. Uma ecosofia do abismo.




Vou contar-vos uma pequena história para compreenderem a razão que me levou a apaixonar-me de forma irremediável pelo pensamento do antropólogo Bruno Latour. E a considerá-lo como um dos meus gurus em Sociologia, um dos pioneiros do pensamento ecosófico.


Conheci pessoalmente Bruno Latour em 2001 numa Escola de Verão organizada pela Universidade do País Basco. O que me surpreendeu logo nele foi a sua forma de andar. Alto, um pouco curvado, parecia que mirava as pessoas de um outro patamar com alguma compaixão. E a sua forma de andar, passos largos, assemelhava-se à de um camponês. Tinha, ao mesmo tempo, uma forma de estar dentro da sua roupa que parecia dizer: "Eu não pertenço a este mundo académico. Estou aqui talvez por acaso ou com numa missão. Mudar as vossas percepções!". 


Esta intuição foi confirmada pelo que narrarei em seguida. Durante a sua palestra, aconteceu algo que considerei mágico. Que me levou a sentir que estava não perante um académico vulgar estilo racional e muito direitinho, mas antes perante um autentico mestre no sentido mais amplo do termo. Aquilo que os hindus designam por Guru mas sem a conotação negativa que lhe é associada pelos ocidentais. E o que aconteceu que me levou a dedicar-me com entusiasmo, aparentemente talvez excessivo, à divulgação da sua obra? Na sua palestra, num certo momento, Latour deu um murro com muita energia na mesa. Confesso que até aquele momento, estava um pouco distraído sendo apanhado de surpresa. O que o levou a essa atitude aparentemente violenta?


Estava argumentando em torno da sua nova noção de "Coisa-pública" sugerindo um parlamento em que os não-humanos estariam representados. Usava um argumento ecosófico ou de um ecologista profundo: não fazia sentido que sendo a republica o governo da coisa publica, os não humanos não tivessem direito a exprimir-se sendo eles o essencial da "COISA" pública (Res-pública)? Depois alguém na assembleia o contestou, se bem me recordo, com argumentos do tipo: "A sua visão é irrealista, filosofia sem interesse, porque toda a gente sabe que não é lógico introduzir os animais, por exemplo, como membros do Parlamento. E muito menos as plantas ou outros não-humanos. Os seres humanos são os que a isso tem direito porque são racionais".

Latour, na sua resposta usando o gesto físico do "murro na mesa", não apelou inicialmente ao nosso pensamento racional mas antes a algo de tipo ontológico. Com o seu murro na mesa, apelava de algum modo ao plano da consistência referido por Gilles Deleuze e Félix Guattari (1992), ao nosso próprio eu profundo (Self) referido por Carl Gustav Jung, a pré-individualidade de Gilbert Simondon, a nossa percepção pessoal sem recorrer a mediações externas que o legitimariam perante nós.

Latour seguia justamente o conselho de Michel Foucault (1997) na sua "Ordem do Discurso": sair das armadilhas do discurso do poder, do discurso que é mais poder do que saber. Procurar a realidade mesma das coisas, por uma intuição ontológica no seu sentido bergsoniano, um desnudamento essencial. Uma ciência alegre, uma ciência da vida que, como justamente dizia Nietzsche, deve ser Ciência, vontade autêntica de saber sem ser conspurcada pelo método dito cientifico criado no século XIX, uma ciência que deve ser capaz de viver na Vertigem, um termo usado também por Albertino Gonçalves (2009) numa obra recente, na consciência do abismo, uma ciência abismal. Na voz de  Hafez (1996: 244), contra o "'alarido e tagarelice de agitadores' que defendem uma ideia de ciência pura e objectiva se ergue Nietzsche, afirmando que “esses corneteiros da efetividade" são maus músicos. Em suas vozes não se pode ouvir, finalmente, a profundeza da consciência científica — “pois hoje a consciência científica é um abismo” (F. Nietzsche, Para a Genealogia da Moral , III, §23.).

Retomando a nossa história, a intensidade do gesto de Latour, dizendo que a mesa onde estava sentado também fazia parte da coisa pública, criou um silêncio quase de morte. 

Uma sensação de abismo atravessou os presentes que rapidamente se desvaneceu quando Latour mostrou o seu sorriso de menino travesso.



Livros de alguns dos autores citados


Deleuze, Gilles e Guattari, Félix, O que é a Filosofia?, Lisboa, Editorial Presença, 1992.
Foucault, Michel, A Ordem do Discurso. Lisboa, Relógio de Água, 1997.

Gonçalves, Albertino, Para uma Sociologia da Perversidade, Coimbra, Grácio Editor, 2009.

Hafez, Rogério, "Nietzsche.Um “crítico”da ciência ?" in Revista USP, São Paulo, n. 28, Dez. 1995/Fev. 1996, p. 232-244.




Um texto fundamental de Bruno Latour em português:

Latour, Bruno, "Como prosseguir a tarefa de delinear associações?" (Tradução portuguesa do prefácio da edição inglesa de Bruno Latour, Reassembling the social. Introduction to the Actor-Network Theory), Revista Configurações, n. 2. Tradução de J. Pinheiro Neves e Luís de Barreiros Tavares.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O novo latim das redes sociais é o inglês... Uma "merda"? Ou será uma criação tribal de resistência ao "sistema"?




Perante estas fotos fabulosas, escreve o anglo-saxónico responsável por esta página do facebook: "This always blows my mind" [Isto rebenta com a minha cabeça]. Também é curioso o nome da página: "I fucking love science" [Gosto fodidamente da ciência].  



Este tipo de escrita [mistura o calão operário de Manchester com estilo escocês popular] começa a ser uma espécie de bandeira, de estilo internético que os jovens portugueses tentam desesperadamente imitar arrasando assim, segundo alguns especialistas, a nossa língua.

Mas será que terá mesmo de ser assim? Não haverá aqui um regresso às cavernas, a formas mais pobres de ser humano, uma nova bárbarie. Falando em bom português, do antigo, não será isto uma enorme "merda"? Ou será que o inglês, como língua, já tem esse vírus na sua natureza?

Será tudo isto bom? Será um índicio de que algo está mudar, um sinal positivo de uma nova sociabilidade emergente, mais tribal, aberta e sadia como defende o sociólogo francês Michel Maffesoli? Mais informal e menos rígida? 

Neste texto, apenas me vou debruçar sobre o ingês como língua, procurar na história indícios que me permitam entender o seu êxito actual. É apenas, de certa forma, uma crónica escrita no fluxo do Facebook.

Finalmente (já era tempo!), começo a entender porque os romanos (e os gregos antigos ao falarem dos que naquela altura falavam línguas com a mesma origem) designavam como "bárbaros" estes povos e esta linguagem, o inglês. Infelizmente parece que esta língua anglo-saxónica tende a ser maioritária no planeta. Com um planeta falando assim, honestamente prefiro mil vezes o chinês. E o que me assusta ainda mais é ver hordas de jovens (muitos deles passaram mais de 1 dezena de anos sentados nas escolas dos vários níveis de ensino) que nasceram em ambientes onde se falam línguas tão elaboradas e inteligentes como o português (neto do antigo e clássico Grego), que de forma provinciana renegam e a sua língua-mãe ( dizia o Pessoa com toda a razão que a sua pátria era a língua portuguesa) e tentam imitar os novos bárbaros. Destinos muito incertos (para não dizer outra coisa mais dolorosa) esperam este planeta!

Esclareço eventuais leitores ou leitoras destas ruminações vagabundas que não sou contra a língua inglesa em si. Nem um nacionalista ferrenho. Pelo contrário: os escritores que me marcaram foram, na era moderna, quase todos anglo-saxónicos. Eles combinam de forma sublime e justa o lado bárbaro do inglês, a sua ligação à natureza (o mesmo se passa, creio no alemão, por exemplo, mas de forma diferente) com o saber, a inteligência que nos ficou da cultura greco-romana. O lado bom que ficou dessa cultura. 

Defendo, isso sim, a ideia de uma pluralidade, como uma polifonia harmónica, como um canto gregoriano em que as diferenças linguísticas sejam entendidas como pontes e não separações. Defendo que a pluralidade deve passar pelo respeito e não pela uniformização da diferença. 

E, num registo mais pragmático e com uma dimensão política, creio que a defesa das línguas locais seja o português ou a língua de uma tribo na Amazónia é também uma questão de ecologia ou de ecosofia. Não são apenas as árvores da selva amazónica que estão sendo destruídas. É também todo um saber (e formas sadias de nos exprimirmos e de viver) que se está a destruir. Tudo isso nos devia fazer corar de vergonha ou de indignação da nossa condição de europeus. 

Os bárbaros de facto somos cada vez mais nós, os conformistas e adoradores dos mitos dos media , que aceitamos passivos a expansão desta forma de falar, trocar, produzir e consumir, os educados pela ignorância da cultura judaico-cristã e da ética protestante do negócio que domina este mundo do deus "mercadoria". 

Um fetiche ( feitiço) realmente poderoso, o capitalismo, bolas!

Excurso

Diz Stephen Thompson: "Os gregos antigos não podem ter designado a lingua Inglesa de barbárie humana, porque, naquela época, o idioma Inglês não existia".

Primeiro o significado da palavra "bárbaro" não é o mesmo do actual. Língua "bárbara" queria apenas dizer que era "estrangeira" ao latim ou ao grego antigo. Não é um adjectivo de desvalorização.

Segundo, você tem razão do ponto de vista formal. Não é totalmente rigoroso dizer o que digo mas de qualquer forma não fujo muito à verdade. Nessa altura, no tempo da grécia antiga clássica de Platão e Aristóteles, não se falava o inglês em Inglaterra. Apenas o celta e possivelmente outras línguas muito anteriores aos celtas. Mas existiam já as formas linguísticas que mais tarde vão estar na origem do inglês mas não em Inglaterra: era a língua dos "bárbaros" germânicos. Como sabe, o inglês surge, mais tarde, já no império romano. O inglês é uma língua colonial usada pelos estrangeiros que, de certa forma, invadem Inglaterra. Paradoxalmente, o inglês não pertence aos indígenas ingleses. Foi uma língua germânica introduzida pelos invasores ou colonos "bárbaros" germânicos e outros. Na antiga Inglaterra, na altura do fim do Império romano, não se falava o inglês mas antes o latim (na parte controlada pelo exército romano) e a língua dos indígenas, o celta, partilhada pelos irlandeses daquela altura e pelos escoceses. E, já agora, também partilhada, entre outros, pelos indígenas ibéricos, já subjugados aos romanos, do noroeste da Península Ibérica que inclui agora a Galiza e o Norte de Portugal. "O inglês é uma língua germânica ocidental que se originou a partir dos dialetos anglo-frísio e saxão antigo trazidos para a Grã-Bretanha por colonos germânicos de várias partes do que é hoje o noroeste da Alemanha, Dinamarca e Países Baixos [Curiosamente os que são considerados actualmente como a parte culta da Europa]. Até essa época, a população nativa da Bretanha Romana falava língua celta britânica junto com a influência acroletal do latim, desde a ocupação romana de 400 anos." Fonte: Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_inglesa

Já agora podemos verificar que contrariamente aos germânicos e aos greco-romanos, e à tradição judaico-cristã, que marca infelizmente a cultura inglesa e os valores ocidentais do capitalismo actual, os celtas tinham uma visão diferente que se aproxima paradoxalmente da cultura dos povos do sul do México e Guatemala de influência "maya".

Os celtas "exaltavam as forças telúricas expressas nos ritos propiciatórios. A natureza era a expressão máxima da Deusa Mãe. A divindade máxima era feminina, a Deusa Mãe, cuja manifestação era a própria natureza e por isso a sociedade celta embora não fosse matriarcal mesmo assim a mulher era soberana no domínio das forças da natureza. A religião celta era politeísta com características animistas, sendo os ritos quase sempre realizados ao ar livre". Uma das cidades marcadas pela cultura celta é curiosamente o Porto (Oporto em inglês), situada no Norte de Portugal, cidade onde eu nasci.



José Pinheiro Neves

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O que é a ECOSOFIA?



O que é a Ecosofia?




O conceito de Ecosofia surge em 1972 numa conferência do pensador ecologista norueguês Arne Naess. Mais tarde, será desenvolvido fundamentalmente por três pensadores: o referido Arne Naess, pai da ecologia profunda, o pós-marxista e psiquiatra Félix Guattari (não esquecendo a contribuição fundamental de Gilles Deleuze) e, mais recentemente, o sociólogo francês Michel Maffesoli.


1. A ecologia profunda de Arno Naess

Arno Naess definiu a ecosofia da seguinte maneira: "Por Ecosofia eu quero dizer uma filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico. Filosofia como um tipo de sofia ou sabedoria é abertamente normativa, contém normas, regras, postulados, anúncio de prioridades e hipóteses relacionados à situação do universo. Sabedoria é sabedoria política, prescrição, não apenas descrição científica e predição. Os detalhes de uma ecosofia conterão muitas variações devidas a diferenças significativas relacionadas não apenas aos ‘fatos’ da poluição, dos recursos naturais, da população, etc. mas também a prioridades de valores".
in Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.



2. As três ecosofias de Guattari


Segundo Félix Guattari, "a ecosofia social consistira, portanto, em desenvolver praticas especificas que tendam a modificar e a reinventar maneiras de ser no seio do casal, da familia, do contexto urbano, do trabalho, etc."
in Félix Guattari, As Três Ecologias, Campinas, Brasil, Papirus,1990.


"A ecosofia mental, por sua vez, será levada a reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o fantasma, com o tempo que passa, com os ‘mistérios’ da vida e da morte. Ela será levada a procurar antídotos para a uniformização midiática e telemática, o conformismo das modas, as manipulações da opinião pela publicidade, pelas sondagens etc."
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995, p. 52.


"O princípio particular à ecologia [ecosofia] ambiental é o de que tudo é possível tanto as piores catástrofes quanto as evoluções flexíveis. Cada vez mais, os equilíbrios naturais dependerão das intervenções humanas. Um tempo vira em que será necessário empreender imensos programas para regular as relações entre o oxigênio, o ozônio e o gás carbônico na atmosfera terrestre.
Vários, The Deep Ecology Movement: An Introductory Anthology, Berkeley, North Atlantic Publishers, 1995,  p. 52

3. A ecosofia segundo Maffesoli 

Num livro recente, Michel Maffesoli define a ecosofia como sendo uma forma de  "compreender a metamorfose em curso. Ela que nos faz passar de progressismo (que foi vigoroso, que deu bons resultados, mas que se torna um pouco doentio) para uma progressividade que reinveste em ‘arcaísmos’: povo, território, natureza, sentimentos, humores… que pensávamos ter deixado para trás". 
in Michel Maffesoli, Saturação, São Paulo, Iluminuras, 2010.


Conclusão

A ecosofia seria a busca duma dimensão ecossistêmica e não mais antropocêntrica das relações do homem com o meio ambiente, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo de conhecimento que integra as ciências humanas, naturais e económicas (
André Bürger, "Ecosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno", Disponível em: http://envolverde.com.br/ambiente/artigo/ecosofia-redes-digitais-sustentaveis-e-os-efeitos-da-tecnologia-no-homem-moderno/ [acesso em 15/05/2011])






Inspirado no trabalho de Félix Guattari, Gilles Deleuze e Michel Maffesoli, sugiro uma definição mais ampla e abrangente: a 
Ecosofia é a procura duma forma de vida menos antropocêntrica nas relações do homem com o meio ambiente incluindo o ambiente digital, com a sua mente e com os outros humanos. Trata-se de um campo transdisciplinar de conhecimento e experimentação que integra tanto as ciências humanas, naturais e económicas como a estética e as formas comuns e, muitas vezes, marginalizadas do saber." 











José Pinheiro Neves


Texto inspirado (nomeadamente as citações) em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecosofia 

Publicado originalmente no blogue:

http://socialsoftware-portugal.blogspot.pt/2012/07/o-que-e-a-ecosofia.html


                         

sábado, 24 de março de 2012

A nudez da escritora Simone de Beauvoir desafia o moralismo do Facebook


"Na quinta-feira, 15, o fotógrafo carioca Fernando Rabelo teve sua conta do Facebook suspensa por ter postado uma foto em que a escritora francesa Simone de Beauvoir aparece nua, de costas. [...]
À primeira vista, pode parecer apenas moralismo, mas corre-se o risco de o bacanal tomar conta da rede social. Na falta de instrumentos adequados — e funcionários capacitados para avaliar, e com rapidez, porque na rede é sempre para ontem, o que é e o que não é arte —, a direção do Facebook teme que comecem a postar fotografias de crianças, adolescentes e adultos nus ou cenas de sexo explícito". 

Euler de França Belém, "Nudez de Simone de Beauvoir e o moralismo do Facebook", in Jornal Opção, in http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/nudez-de-simone-de-beauvoir-e-o-moralismo-do-facebook

A censura da foto de Simone Beauvoir, pela organização FACEBOOK do Brasil, constitui um sintoma muito preocupante para a eco-cidadania digital. Qual a entidade que irá definir a "regra" que separa o nu artístico do nu pornográfico numa foto? Não será mais importante o contexto do que uma visão cega, como refere justamente o jornalista, assente na moral e na ética protestante do século XVIII?  

Curiosamente a foto não apresenta nenhum sinal de ser ensaiada para ser vista com um "olhar" pornográfico. É um corpo natural sem as operações de domesticação estética...  É um corpo em si que flui e que ama, que se vê a um espelho. E que é visto (apenas?) de costas. A única possibilidade de criar alguma percepção pornográfica seria a sua nudez traseira e a beleza do seu corpo bem proporcionado. Contudo, faz-me recordar uma cena doméstica normal nos teatros de Paris dos anos 50. Tem, na minha opinião, uma qualidade: dá-nos uma sensação do espírito do tempo, um imaginário como diz M. Maffesoli. Um tempo de criação, um tempo que irá culminar no "Maio de 1968" em Paris.

De certa forma, o argumento estético que invoco tem também uma dimensão ética importante. Remete para uma outra visão do mundo que surgiu com a arte moderna e as novas formas de vida emergentes em finais do século XX.

Neste ponto, a internet começa a desafiar os modos tradicionais assentes na ética do trabalho e na moral protestante que emergiram no século XIX com a forma capitalista moderna de viver e de se submeter. Essas formas ainda dominam em grande parte a lógica da economia e da política (com oposições célebres como, por exemplo, o Prémio Nobel da Economia Amartya Sen). Contudo, no campo da arte e da vida quotidiana no mundo digital essa realidade aparentemente dura tende a ser vista como uma cortina de fumo que se dissolve no ar. Uma feiticização mágica, um controlo em fluxo como dizia Gilles Deleuze, que idolatra a mercantilização da energia e a superiroridade do "aço" sobre a carne perde, pouco a pouco, a sua eficácia. 


A questão central é a de saber até que ponto o que se passa no mundo "real", com os seus controlos legais baseados, por exemplo, no direito do autor, na imposição de limites, poderá ser aplicado num outro espaço público - as redes sociais digitais. Que são justamente e tão só uma outra forma de estar em público.  Até que ponto esta ordenação média não é o começo (ou o alargamento) de uma onda preocupante em que as outras formas de controlo do espaço público baseadas numa  "ética protestante" de tipo norte-americano, que ainda não estão a ser aplicadas na rede internética, comecem a proliferar . E associada a essa ética, como muito bem mostrou o fundador da sociologia, Max Weber nos começos do séc. XX, desenvolve-se toda uma lógica, a engrenagem do espaço público dominado pela crença na escravatura/euforia tecnológica e na valorização da vida-mercadoria.

Este pequeno passo do Facebook é um indício, sem dúvida, preocupante tornando urgente uma acção que não se pode ficar pela contestação das leis internacionais para controlar o direito de autor e o anonimato (Ver o caso SOPA). A cidadania eco-digital passa também necessariamente por estas pequenas resistências, micro-acções estéticas que poderão modelar ou não o nosso futuro próximo. As sombras do "Big brother" de G. Orwell já não são mera ficção...

José Pinheiro Neves (Blog: http://socialsoftware-portugal.blogspot.pt/ )

Nota: deverei também publicar a foto de Simone Beuavoir arriscando-me a ter a minha página no Facebook banida?
Aceitam-se sugestões. :-)

Excertos do artigo:

"Na quinta-feira, 15, o fotógrafo carioca Fernando Rabelo teve sua conta do Facebook suspensa por ter postado uma foto em que a escritora francesa Simone de Beauvoir aparece nua, de costas. A fotografia foi feita em 1952 pelo fotógrafo americano Art Shay, durante uma passagem da autora de “O Segundo Sexo” por Chicago. Art Shay era amigo de Nelson Algren, o amante americano da autora.
Ouvido pelo Portal da Imprensa, Fernando Rabelo disse estar surpreso com o bloqueio: “Eles devem controlar a pornografia, mas essa censura precisa ter algum mecanismo que saiba controlar o que é conteúdo artístico e o que é algo pornográfico. Chega ser assustador ver que a arte está sendo banida do Facebook. Porque censuram uma foto artística, mas nas propagandas pagas da página vemos diariamente anúncios de serviços de encontros. É necessário que saibam diferenciar o que é arte e o que é pornografia para não virar uma ditadura”, destaca Fernando Rabelo. A assessoria de imprensa do Facebook no Brasil afirmou ao Portal da Imprensa que “os termos de responsabilidade da rede social são seguidos à risca e não há exceção para imagens artísticas”.
À primeira vista, pode parecer apenas moralismo, mas corre-se o risco de o bacanal tomar conta da rede social. Na falta de instrumentos adequados — e funcionários capacitados para avaliar, e com rapidez, porque na rede é sempre para ontem, o que é e o que não é arte —, a direção do Facebook teme que comecem a postar fotografias de crianças, adolescentes e adultos nus ou cenas de sexo explícito. Censura-se tudo como medida de profilaxia moral e, ao mesmo tempo, legal. O Facebook pode ser acionado como corresponsável se aceitar a divulgação de determinados tipos de fotografia. Talvez seja o caso de o usuário postar apenas os endereços de fotografias e assuntos correlatos.
No caso específico de Simone de Beauvoir, o Facabook não tem instrumentos e capacidade para entender o seu pensamento e seu comportamento, pois nivela tudo, e não necessariamente por baixo. Define uma média e ponto. A fotografia já saiu em livros e a própria escritora era uma mulher liberal, manteve, durante anos, um relacionamento aberto com o filósofo Jean-Paul Sartre. A regra é que não havia regras — eles podiam ficar com quem e quando quisesse. Sartre era um verdadeiro fauno e dava em cima até de alunas de Simone".





PS - Uma arma do mercado, que dispõe o consumidor do produto rede social, seria optar por outro concorrente. Mas neste mercado não haverá um Monopólio mais ou menos não assumido por parte do Facebook e do Google? Apesar de tudo, resta sempre a argumentação na cidadania. Uma argumentação que repete o cenário do surgimento da estética moderna quando esta abalou as nossas formas ocidentais de ser humano, de percepção. Ou não será a estética também um campo importante na definição do nosso modo de vida futuro? E quando se refere o perigo de o Facebook  ser mais atacado ainda pela colocação de fotos nuas está-se a tocar na dimensão política do fenómeno. Eu diria eco-política pois a onda digital, estas novas ligações, coloca, de algum modo, em causa formas de vida mais ou menos rígidas que emergiram com o espírito do capitalismo e a ética protestante (ver Max Weber). O que está em jogo, na minha humilde opinião, é a opção entre um modelo do século XIX que domina ainda, em grande parte, o imaginário da internet e da economia e um outro modelo emergente que sustenta, em outras coisas, a necessidade de novas formas de espaço público, de cidadania eco-digital. De novas ligações e de novas auto-regulações.